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segunda-feira, outubro 17, 2005

Barbeiro

Como o meu cabelo já estava a ficar indomavel decidi ir a um barbeiro. Como é obvio tinha que ser sul-americano. Entrei num que pelo ar prometia, lá dentro estava cheio de imagens religiosas bastante coloridas e havia uma música mexicana no ar.
Aparece-me uma sul-americana, com excesso de peso que se estendia que às mamas, este ponto vai ser importante mais à frente. Digo-lhe que quero cortar o cabelo, ela aponta para as paredes, cheias de fotos, dizendo para escolher o que quero e vai-se embora para dentro. As fotos das mulheres tinham todas um ar dos anos oitenta, com umas popas bem feias, mas visto não ser aquela a minha secção, não me preocupei. A parte dos homens estava repleta de mexicanos de cabelo rapado, com ar de gangster, alguns até tinham coisas escritas no cabelo. Aí comecei a pensar “que raio de sítio fui escolher”. Mas depois lá encontrei uma secção com gajos normais e consegui escolher um com ar cool.
O problema é que a simpática senhora nunca mais aparecia e um cheiro estranho pairava no ar. Corajosamente espreito para as traseiras e vejo-a a mexer em duas aves pequenas que estavam no lavatório. Olho com mais atenção, e vejo que ela metia uma seringa num balde e em seguida despejava o conteúdo da seringa na boca das aves. Neste momento penso em fugir, mas consciencia pesa-me “vou passar aqui à frente várias vezes ao longo do ano e com que cara olharei para ela?”, a outra parte pensava “esta merda é um nojo! Foge enquanto ela está de costas”. A decisão final foi ficar, afinal era só um corte de cabelo, não valia a pena ficar com um peso na consciencia por causa disso.
Quando ela regressa aponto o gajo com ar cool, sento-me na cadeira e começa o corte. Enquanto andava com a tesoura à volta do meu cabelo, a fazer uma ginástica para não me dar com as mamas na cabeça, virava as costas para ver a foto, pensei “é um corte que não costuma fazer por isso tem que olhar mais vezes, no final vai ficar bem”.
Começa com a conversa banal, se sou estudante na USC, qual é o meu país, etc. Às tantas pergunta-me se sou casado, respondo que não. Olha para mim com um ar estupefacto e libidínoso “como não és casado?!”. “Sei lá!” foi a única coisa que soube dizer. Vai novamente lá dentro e volta com um cheiro limão, acho que era um perfume barato. Volta à carga “mas tens namorada?”, “não!”. Aí ela perde a paciencia e frontalmente questiona-me “mas gostas de raparigas?”, “gosto!!”, “então porque não tens namorada?”. Já não sabia o que havia de dizer, não sei se estava a fazer-se e queria dizer “como é que uma bomba destas não tem namorada”, ou se pura e simplesmente achava que um homem que não tem namorada é gay. Acabou a dizer, “deve ser por estudares muito”, deve ser…
Acabei a dar-lhe 8 dólares e um sorriso acompanhado de um “até à próxima”. Que ela replicou com um sorriso e um olhar de “não te entendo”. O cabelo nem ficou mal.
Cerebral

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