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terça-feira, janeiro 25, 2005

Uma vida de teso - 5º Folhetim

Como ficaram sozinhos não é importante. Mais do que isso, se lhe perguntassem ele próprio não se lembraria. Conseguiria com toda a certeza descrever o sorriso e aquele olhar (não sei se já vos falei nele) mas dificilmente seria capaz de recapitular os caminhos que a sua mente e as suas palavras fizeram.

Foi talvez depois de um jantar, de um lanche, de uma saída à noite, foi talvez aquele momento onde parece que tudo corre a nosso favor, que a própria corrente do rio se inverte para nos ajudar.

Ficaram pela primeira vez sozinhos. Não que já não estivessem estado juntos só os dois, mas agora estavam sozinhos, os dois e um enorme vazio à volta como se tudo o resto deixasse de existir. E então aproximou-se dela e beijaram-se prolongadamente. E na sua memória àquele sorriso e olhar juntou os seus lábios, o seu cheiro, a sua pele macia e os seus olhos fechados enquanto se beijavam como se viajasse noutro mundo.

Depois…depois foi como escreveu Sérgio Godinho “olha, não dá pra contar, mas sei que tu sabes daquilo que sabes que eu sei, e com um brilhozinho nos olhos ficámos parados depois do que não te contei”. E nesse momento tudo mudou…

Nós temos tendência para fazer do passado “tábua rasa”. Para pisá-lo e diminui-lo, limitando-nos a olhar para a frente. Como se não tívessemos vivido, como se não tivéssemos amado. O passado era engano. O futuro seria diferente.

Mas ele não acreditava nisso. Sentia que o passado era lições, aprendizagens. Dizia que quando começamos a vida o que nós queremos é como um jardim abandonado, com árvores diversas e desordenadas, relva grande e por cortar. E pouco a pouco vamos percebendo e aprendendo o que queremos. Descobrimos que não gostamos deste tipo de árvores, que gostamos daquele, que o bom para nós é relva cortada assim ou assado. E cada relação que tivera ensinara-lhe isso: que jardim procurava.

E o destino que pensara ter-lhe virado as costas, todos os falhanços que lamentara pareciam agora abençoados. E ela apareceu assim, como o jardim que idealizara e imaginara…

Il Fenomeno

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