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segunda-feira, janeiro 03, 2005

Uma vida de teso - 2º Folhetim

Talvez seja a altura de enquadrar o protagonista. Começar a história no primeiro dia do ano tem o misticismo próprio de quem começa tudo de novo, como se fosse o dealbar de uma nova existência. Porém, havia toda uma vida para trás que não podia ser ignorada.

Ao longo dos seus vinte e tal anos de vida, tinha sido uma pessoa feliz, com toda a subjectividade que isso implica. Certo, sofrera e tivera dificuldades como os outros mas acaso acreditasse na força do destino não poderia de forma nenhuma queixar-se do que ele lhe tinha reservado.

Era uma pessoa normal (sendo esta a mais indefinida das definições). Inteligente, divertido e bem-nascido tivera sempre aquilo que de uma forma ou outra quisera. Adorava os amigos, a família, as coisas simples da vida e tinha apenas um vício: o seu Belenenses pelo qual se habituara desde novo a sofrer, até porque parecia que era isso que aquele vício lhe reservava: sofrer. Não fosse esse, afinal, o destino de todos os vícios.

Dono de uma ironia ácida, geneticamente estava talhado para descobrir o ridículo das coisas. Acreditava sinceramente que tudo nesta vida era gozável e ridículo. Aprendera que o humor alivia as nossas próprias incompreensões e inseguranças. Diz-nos que todos nós somos profundamente iguais, que mesmo apesar de engravatado o primeiro-ministro também faz as suas necessidades na casa de banho como todos nós.

Acreditava em poucas coisas na vida que não pudesse à partida controlar ou influenciar. Não acreditava em nenhuma religião ou força astrológica. Divertindo-se, aliás em perceber que juntamente com ele 2 biliões de chineses do mesmo signo iam ter uma semana igual com possíveis oscilações na vida amorosa, com condições propícias para novos projectos no trabalho e em termos de saúde, com problemas no fígado e na vesícula.

Mas acreditava profundamente no amor como força incompreensível e incontrolável. Ao longo da sua vida sofrera demasiado às suas mãos para o subestimar e o encarar como mito humano ou força de somenos importância. Aprendera a respeitar e a temer o que o destino lhe reservava neste aspecto. Amara muito, poucas mulheres e pouco, muitas delas. Quem, na sua vida profissional de analista financeiro primava por uma sagacidade e perspicácia bastante apuradas, tinha efectuado, no campo amoroso, os “investimentos” errados.

E isso incomodava-o particularmente. Não os conseguia encarar com a mesma desfaçatez com que fazia o resto das coisas na sua vida. Escrevera um dia que na vida o falhanço está intimamente ligado ao tempo. Os falhanços decorrem da limitação própria do tempo, e que quando não estamos limitados o carvão acaba por se transformar em diamante, a areia em pérolas, os gorilas em homens. O problema é que durante a existência, os gorilas não têm tempo para deixarem de ser gorilas e o carvão de se transformar em diamantes. Falhamos porque somos fugazes. Contudo no amor é diferente. Porque no amor falhamos por falhar não pela limitação do tempo. Quando a pessoa que amamos não nos quer, nem que vivêssemos todo o tempo deixávamos de falhar. Nunca deixaremos de ser gorilas, carvão ou areia.
E o incómodo vinha daí, de lhe custar a entender como o amor foi tão injusto para ele que lhe foi só dedicação; como gastara o melhor de si a quem não merecia…

Il Fenomeno

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