Reza a tradição de qualquer boa história que se comece pela apresentação da personagem principal. Diogo Inácio, era esse o seu nome. Não é que isso por si mesmo nos diga quem ou como ele é, mas ao menos é um começo. Presumo que seria totalmente diferente se se chamasse Ezequiel ou José da Purificação.
31 de Dezembro, e por ironia do calendário, calhava ser o último dia do ano. Deitado sobre a cama pensava que roupa usar naquela que seria a celebração da entrada do novo ano. O ano passado, cumprindo, todas as tradições e mezinhas existentes, usara uma série de peças de roupa novas, incluindo roupa interior azul, numa clara confusão com os hábitos de uma noiva. Fora, porém, um ano relativamente aziago(sendo que a vida lhe tinha sorrido o suficiente para considerar que apesar de um dos piores anos que se lembrara de ter vivido, não tinha grandes razões de queixa). Como tal, decidiu fazer o contrário do ano passado, numa prova paradoxal de superstição, e usar apenas roupa antiga, aquela que há mais tempo se encontrava no seu armário como uma fé enraizada na força da tradição.
Sabia que se ia divertir, como sempre acontecia em qualquer evento social, mas vivia tranquilamente uma fase introspectiva e serena fazendo com que o frenesim próprio da expectativas destas festas se perdesse na certeza pacífica de que nada de extraordinário, nem para o bom nem para o mau entenda-se, se passaria.
Aguardava placidamente um período bem passado, repleto de lugares-comuns e chavões que se usava dizer nestas alturas: "que o melhor de 2004 seja o pior de 2005"; "desde que haja saúde, o resto somos nós a construir". Todas aquelas frases lhe ecoavam ocas de significado para quem nunca se habituara a fazer resoluções para o ano seguinte, nem a acreditar que a vida mudasse pela simples mudança de um número no final da data.
Ao ler estas linhas ficaram chocados, porventura, com o caractér, quiçá desinteressante e quase agnóstico de Diogo. Ora se assim pensaram, não podiam estar mais enganados. Era por natureza uma pessoa interessante, divertida, que vivia a vida intensamente e amava a vida que vivia. Mas como alguém disse em tempos, todos nós somos como um calendário que atravessamos as diferentes estações do ano. E por mais ameno que seja o nosso clima, existem sempre Invernos para ultrapassar.
Mas isso estou certo descobrirão nos próximos folhetins.
Il Fenomeno

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