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segunda-feira, março 29, 2004

Porquê Belém II

BelenensesXGil Vicente. Chego ofegante, saí demasiado tarde do cliente. Entro em correria no estádio do Restelo, desolado olho para o marcador 0 a 0 aos 32 minutos de jogo. Olho à minha volta, pessoas remexem-se nervosamente nas cadeiras, movimentam-se continuamente nas filas meio desertas para cá para lá, como se o constante movimento das pernas lhes acalmasse o coração. Em todos os olhares sinto uma coisa: angústia, sofrimento...Sento-me calmamente e qual messias anunciando a boa nova, dois minutos depois, cruzamento de Brazília, Hugo Henrique 1-0 Belém. Minuto seguinte, penalty para o Belenenses, parecia que a sorte estava a mudar. As três pessoas à minha frente viram as costas, não conseguem ver o penalty, eu ao invés olho fixamente e vejo a bola sair penosamente ao lado...
A cada minuto que passa o sofrimento parece crescer exponencialmente, as pessoas sentam-se, levantam-se, olham para o céu, para o chão, para quem lhes possa valer....A segunda parte decorre como à primeira, o Belenenses ataca, domina e falha oportunidades atrás de oportunidades, como se diz na gíria futebolistica: que davam para ganhar 10 jogos. A bola teima em não entrar, bate no poste, na pernas de alguém, vai milimetrticamente fora. Há pessoas que saiem, que dizem não aguentar, que aquele jogo é demasiado importante e corre de forma demaisado cruel para o seus corações. 92 minutos de jogo, bola bombeada, Hugo Henrique ganha o ressalto, isola-se e faz o 2-0. Ganhámos. A explosão de laegria é inexplicável. O senhor ao meu lado, idoso como tantos outros no Restelo, olhos cansados que já viveram os tempos gloriosos do Belenenses, abraça-me como um menino, vejo as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, e olhando repete constantemente: já não descemos, já não descemos, como se fosse tudo o que ele quisesse ouvir....
O jogo acaba, os jogadores abraçam-se, beijam a camisola com a cruz de cristo debroada, os gritos de Belém, Belém ecoam das gargantas dos então sofredores adeptos. Os jogadores até então acusados de coveiros de uma instituição como a do Belenenses são promovidos a heróis, a apaziguadores da nossa dor. Homens graudos abraçam-se, festejam juntos, homens que nunca se viram e que se calhar nunca o voltarão a fazer. E foi então que percebi: cada pedaço de sofrimento, torna aquele clube, aqueles adeptos mais fortes, como uma doença de alguém importante tem o condão de nos aproximar dela, vejo isso claramente, amar na felicidade, na abundância é fácil e de certa forma preverso, na tristeza, nos maus momentos está o verdadeiro amor e esse aconteceu hoje naquele estádio, aquelas 4 mil pessoas por aquele clube, possivelmente mais do que em muitos titulos nacionais ou europeus festejados por essa Europa fora. E essa é e será sempre a força do Belenenses!

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