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quinta-feira, maio 05, 2005

Exuberância da Serenidade

Artigo escrito pelo jornalista Rui Dias publicado no jornal Record.

1 - Tem um nome curto mas com significado excessivo para as próprias ambições. No Restelo, onde chegou tarde, deram-lhe papel de relevo na transição de um ciclo; aceitou todas as responsabilidades, incluindo a de jogar no meio-campo onde, apesar da fiabilidade nos duelos individuais, apresentava défice de técnica nos espaços reduzidos e de visão para lançar à distância; onde revelava pouca agilidade para sair a jogar e talento moderado para tratar a bola. Pelé era um central que actuava dez metros à frente e não a referência moral da equipa; cumpria os requisitos da eficácia em missões menores mas não satisfazia a elevada exigência dos adeptos belenenses, habituados à grandeza e autoridade de Tuck, um dos mais completos e menos reconhecidos mestres nacionais na função de médio-centro.

2 - Dono de envergadura impressionante, Pelé sabe utilizar o corpo nos despiques directos (implacável no jogo aéreo defensivo) e é inteligente na percepção das distâncias em relação à bola; é seguro na ocupação do espaço e harmonioso nos gestos que conduzem à acção; sendo contundente na chegada é também um óptimo avaliador das situações de perigo iminente, razão pela qual decide sempre bem quando está pressionado. É essa capacidade para adivinhar o drible, o ressalto, o destino do cruzamento e a intenção do passe que relativiza o peso de físico e grosserias no reportório – só viu o amarelo seis vezes em trinta jogos. Pelé assenta numa exuberância serena, que contradiz a primeira imagem de músculo e brutalidade, porque dispõe de todas as armas necessárias para cumprir na íntegra a sua parte no plano azul.

3 - A zona pressionante de Carlos Carvalhal obriga a uma coordenação meticulosa de todos os movimentos colectivos e apela à consciência de cada um para o risco fatal de traições individuais. Se o conceito é inalterável nos princípios básicos, o Belenenses adulterou a sua intenção na Luz. Recuou em excesso, foi passivo e não activou a transição ofensiva. Colocado perante a contingência de limitar a acção à vigilância a Nuno Gomes, Pelé deu resposta cabal, mesmo sem expressar as melhores qualidades. Mas por não ser um defesa cuja dimensão se reduza à simples generosidade; à presença excessiva que leva a prestações heróicas e à demagogia que mascara, pela via do esforço, a intenção exclusiva de destruir, não viveu feliz nesse embate com o Benfica. 4 - À frente de um enorme guarda-redes (Marco Aurélio) e ao lado de um dos maiores talentos defensivos do futebol português dos últimos dez anos (Wilson), Pelé consolidou argumentos que o colocam entre os melhores centrais da SuperLiga. Em articulação com Amaral (que dá profundidade na direita), Sousa (que ajuda em zonas interiores) e Rui Ferreira (que dá equilíbrio à manobra a partir de zonas mais adiantadas), o Belenenses construiu a defesa menos batida da segunda volta, com oito golos sofridos em catorze jogos – nas primeiras 17 jornadas sofreu a exorbitância de 25 tentos. Prova de que estava condenado a desempenhar papel importante no Restelo, Pelé já reuniu condições para entrar na história azul como herdeiro natural de Filgueira.

Il Fenomeno

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