Levantou o sobretudo para se proteger do vento gélido matinal que o fustigava. Aqueles primeiros dias do ano estavam a ser particularmente frios. Embora curto, aquele percurso para o carro, parecia-lhe o maior dos martírios. “Felizmente não chove”, pensou. A noite anterior ouvira o presidente de uma qualquer associação agrícola a queixar-se do “mais seco Inverno dos últimos anos” e do “potencial desastre para a economia agrícola portuguesa”. Mas por muito egoísta que fosse, não podia deixar de pensar que preferia o seu fato seco à prosperidade das culturas dos nabos e beterrabas.
Enquanto angustiava nas exasperantes filas de trânsito pulava de estação em estação de rádio. Ouvira um dos especialistas do Instituto de Meteorologia concluir brilhantemente, que para este Inverno se prevêem três cenários possíveis: maior precipitação que o ano passado, menor, ou sensivelmente a mesma. Ouvira o trânsito na AIP, na Bessa Leite, no IC 19 ou na descida da Pimenteira entre músicas dos Nickelback e da Jennifer Lopez. Ouvira as últimas notícias por entre concursos e segmentos humorísticos mentecaptos. E tudo isso fazia parte da sua rotina. Como muitas outras pequenas coisas que agora acolhia para tornar a sua vida simples e acolhedora, protegida e a salvo de surpresas desagradáveis.
Surpreendera-se agradavelmente como conseguia construir o seu próprio mundo, com as suas próprias coisas, de forma solitária e feliz, como se as outras pessoas fossem apenas apêndices sociais que não poderiam penetrar essa concha que construíra.
Acreditava que no mundo havia energias, que faziam mover o nosso destino, que o faziam inclinar para nosso benefício ou malefício. Só isso podia explicar o que não controlávamos. Havia, o que chamava “fase Midas”, onde tudo o que se tocava era ouro, onde todos os eventos exteriores pareciam se conciliar a nosso favor. E havia a outra, a que sentia que vivia, a que lhe parecia adequado chamar “fase Santana Lopes”, onde parecia que as sortes do destino tinham feito um pacto para nos prejudicar. E por isso se fechava, se protegia do vento agreste e cortante que o destino agora lhe soprava, na esperança de controlar novamente as rédeas da sua vida.
Disse anteriormente que ele escrevia. Ora, a escrita fazia parte desse refúgio e cumpria na perfeição a sua função catártica. Era uma escrita escorreita, sem pausas e emendas. Não se preocupava com a correcção literária mas em libertar os seus fantasmas como que se os problemas transpostos para papel perdessem toda a sua dimensão. Enchia páginas de textos melancólicos e reflexivos. De palavras tristes e lúgubres. Sorria quando lhe diziam que os seus textos eram demasiado intimistas e deprimentes, pois se era nessas fases que escrevia. Quando estamos felizes e contentes, pensava, gozamos a vida, não nos pomos em frente de um computador ou de folhas de papel a escrever.
Mas como dizia, naquele que era um dos primeiros dias anos, tudo se mantinha na mesma. Mais um dia igual aos outros, o mesmo frio cortante, o mesmo trânsito na AIP e no IC 19, as mesmas músicas, o mesmo arrumador “pode vir, chefe, pode vir…”, o mesmo café aguado, a mesma mesa e cadeira desconfortáveis, o mesmo computador aprisionador, tudo igual…
E no entanto, no meio dessa simpática rotina protectora, os seus olhares cruzaram-se, e ele viu-a…
Il Fenomeno

Sem comentários:
Enviar um comentário