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sexta-feira, janeiro 14, 2005

Uma vida de Teso - 4º Folhetim

…pela primeira vez. E nesse instante as palavras deixaram de ser necessárias. Todos os dicionários, todos os poemas que foram escritos, todos os textos que jamais lera e ouvira deixaram de ser precisos. Porque naquele olhar condensou tudo o que sempre quisera dizer.

Construíra uma construção resistente a tudo o que pudesse acontecer. Erguera uma redoma contra o destino que lhe virara as costas. Protegera-se no seu próprio mundo, inalcançável e solitário. E de repente, a mais sólida das construções, ruía. Um simples olhar, igual às outras centenas que trocara, transformava em pó o que passara meses a erigir.

Pensará o caro leitor que exagerei. Que me deixei levar pela própria beleza das palavras, pela emoção do sentimento. Que hiperbolizei dramaticamente a situação, pois nenhum olhar, por mais intenso que fosse, poderia ser tão decisivo, poderia derrubar aquilo que ele construíra com toda a preocupação, ou mudar assim o destino de uma pessoa. Pois bem, existirá melhor definição para o que sentira do que o exagero? Tudo lhe parecia de repente desproporcionado, intenso, completo…

Milhares de escritores e poetas descreveram este sentimento melhor do que alguma vez conseguiria. A humildade impede-me de ter a pretensão de em poucas linhas o conseguir descrever. Mas foi assim, como um sopro do destino, que aconteceu…

Passara, no entanto, demasiado para se deixar levar pelo momento. A vida ensinara-lhe a ser cínico, desconfiado. Estarão concerteza recordados que sofrera, demasiado como sempre acontece quando se sofre. Iludira-se, pensando ser muito mais que a peça marginal que foi na vida de algumas pessoas. E isso ensinara-lhe a desconfiar. Era como um jogo de xadrez onde só via as suas peças desconhecendo por completo as jogadas do adversário.

Além disso era difícil saber o que fazer. Intrigara-se sempre que nos filmes, nos romances, as palavras certas pareciam ser sempre encontradas, enquanto ele parecia perdê-las nas alturas certas. Acreditava que as mais bonitas palavras de amor não foram aquelas que foram ditas mas aquelas que se perderam na mente envergonhada ou na voz hesitante de quem queria dizê-las.

É estranha a natureza humana. Como nos consegue tornar o mais inapto de todos os seres nas situações mais importantes. Como esperamos por um momento e quando ele chega ficamos ali inertes, petrificados, rodeados de banalidades. E talvez seja isso que nos distingue dos animais: a nossa própria insegurança. É ela que nos torna racionais, é ela que nos obriga a arranjar justificações para tudo, não somos temerosos, descomplexados e libertos como um animal consegue ser.

E àquele olhar, diferente de todas as outras centenas que trocara naquele dia, outros seguiram-se, sempre diferentes das outras centenas que trocara todos os dias. Perdia-se em conversas banais, perdia-se naquele riso contagiante, e naquele olhar (não sei se já vos tinha falado nele) e no meio de solavancos, dos caminhos tortuosos das palavras conseguiu que ficassem sozinhos.

Il Fenomeno

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