Ao longo de toda a minha vida fui massacrado pela expressão: "no meu tempo é que....".
Lembro-me de discussões intermináveis com o meu pai sobre como no tempo dele é que...enquanto hoje em dia nem por isso.
Do futebol à política, da saídas à noite ao estado do tempo.
Apesar de sempre imbuidas de um espirito de falsa moralidade encerravam em si o fascínio e a admiração que o meu pai me provocava quando era novo, como um qualquer ser especial e mágico, intocável e sem defeitos. E é com pena que vejo toda essa construção ruir pouco a pouco e ver no meu pai as mesmas falhas e defeitos de todos nós.
Recordo com saudade as acusações do meu excessivo comodismo, argumentando ele que no seu tempo para ir à escola fazia 10 kms a pé, à chuva, ao vento, à neve...Escusado será dizer que o impacto desta frase foi bastante diminuido quando descobri que a escola era ao lado de casa do meu pai e não há memória que tenha nevado na Madeira.
Lembro-me de o meu pai contar as suas saídas nocturnas onde calcorreava Lisboa, da Conde Redondo ao Campo Grande, e parava nos cafés para dialogar sobre a vida, a politica e o futebol. Até esta imagem foi destruida pelo melhor amigo do meu pai que se lembrou um dia, já afectado pelo alcool, de contar como eles iam a um bar qualquer de strip perto de Santa Apolónia. E mais uma peça da construção caiu...
A última peça desta construção mágica do "no meu tempo é que..." foi destruida pela RTP Memória. Ao longo do meu crescimento o meu pai contava-me as qualidades de jogadores míticos como Coluna, Simões, Torres e claro Eusébio...Jogadores sem paralelo hoje em dia. Apesar de a lógica me dizer que o incomparável maior profissionalismo e qualidade de treino fizessem essa afirmação não ter sentido. Ora no outro dia sentei-me a ver a final da Liga dos Campeões entre o Benfica e o Barcelona de 1961 creio. E qualquer imagem mitificada que pudesse ter caiu naquela altura. Sentado ao lado do meu pai víamos um Coluna que parecia ter 110 kgs de peso e jogar a 2 Km/h, uma espécie de Paulo Almeida lento (sim é possível, eu vi). Não posso deixar de recordar o ar inconsolável do meu pai a repetir para ele próprio como se se tentasse convencer: "mas eles jogavam melhor, eu achava que eles jogavam melhor..."
E de repente percebo que o tempo dele, o nosso tempo e o tempo futuro não são diferentes. Em vez de burros há carros, em vez de piões, tivemos spectrums e agora playstations mas na essência os tempos são iguais. E nós como antigamente somos feitos da mesma massa....
Il Fenomeno

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