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sexta-feira, janeiro 16, 2004

episódios familiares

Cá por casa sempre tivemos uma relação turbulenta com o frigorífico, bem sei que a culpa não cai toda sobre as prateleiras do electrodoméstico, temos o hábito, penso eu importado das ex-colónias, de colocar tudo o que é alimento dentro do coitado. O problema é que o dito cujo não correspondia às nossas espectativas, cada vez que faltava tema de conversa ao jantar:
-Não percebo o raio do frigorífico, nunca põe a água realmente fresca.
-Também para que queres a água tão fresca, só te faz mal à garganta!
-Ainda por cima com essa tosse, nunca mais ficas boa...

Ou então algo do género:
-Isto é que é uma chatice, passados três dias já os vegetais estão amarelos, ainda por cima estão cada vez mais caros, é só deitar dinheiro fora.
-Não compres tantos de cada vez.
-Isso é muito fácil de falar, sabes bem que cá em casa nunca faltou nada...

Como podem constactar, o safado do electrodoméstico deu origem a uma série de discussões no seio desta harmoniosa família, das quais saía despercebido. Até que certo dia, a minha avó farta da brincadeira, resolveu chamar um técnico para terminar com o nosso calvário. Estava a minha avó indignada a contar ao técnico o mal que atormentava a casa há quase uma década, quando ele com a maior displicência sentencia: “minha senhora, com um conservador o que estava à espera?”.
Meus amigos, não conseguem imaginar o choque que foi para toda a família, durante anos pensávamos que o objecto onde guardávamos nossos mantimentos era um normal frigorífico, e assim sem nenhum aviso prévio um qualquer técnico informa-nos que era uma conservador! Sempre pensei que ia buscar o yogurte ao frigorífico, não ao conservador. Por isso a água de minha mãe nunca estava fresca, por isso os legumes que a avó comprava ficavam amarelos.
Neste momento somos uma família a aprender a viver de novo, desta vez com um frigorífico, é verdade que ainda nos assustamos quando ele faz barulhos (já descobrimos que é para refrigerar), ainda nos admiramos dos doces das festas durarem mais de uma semana sem se estragarem. Mas o que importa é termos a consciência que mudámos para melhor.
Cerebral

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